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Dá pra usar linguagem não-bíblica no aconselhamento?

Ocasionalmente, alguém me pergunta sobre a adequação do uso de linguagem extra-bíblica para descrever a condição humana.

Esta pergunta pressupõe que existem palavras em nossa linguagem cristã que não são encontradas na Bíblia. E também que há palavras na Bíblia que são usados de maneira não pretendida originalmente na Bíblia.

A questão é se há ou não problema em usar terminologia extra-bíblica e sub-bíblica, ou palavras bíblicas alteradas.

É uma pergunta boa e razoável, sobre a qual todos nós devemos refletir.

Rigor bíblico e precisão teológica são essenciais para todo cristão, se estamos defendendo a nossa fé ou ajudando alguém em sua fé.

A contribuição da História da Igreja

Parece que a maioria dos cristãos não vê problemas com o uso de linguagem extra-bíblica.

Historicamente, a igreja tem considerado essencial o uso de linguagem extra-bíblica na compreensão dos ensinamentos da Bíblia. Este “novo” tipo de linguagem é a forma como nossos abençoados credos eclesiásticos vieram a existir.

Vários anos atrás eu li uma citação de Herman Bavinck que fechou toda esta discussão sobre o uso de linguagem extra-bíblica para mim. Em vez de parafrasear o que ele disse, eu pus a citação aqui para sua reflexão. É excelente:

“A Escritura, afinal, não nos foi dada simplesmente para repeti-la feito papagaios, mas para processá-la em nossas próprias mentes e reproduzi-la em nossas próprias palavras. Jesus e os apóstolos usaram-na dessa maneira. Eles não só citaram a Escritura literalmente, mas também por um processo de raciocínio tiraram inferências a partir dela.

A Escritura não é nem um livro de estatutos ou um livro de dogmática, mas a fonte fundacional da teologia.

Como Palavra de Deus, não só as suas palavras exatas, mas também as inferências que delas se retiram legitimamente têm autoridade vinculativa. Além disso, a reflexão sobre a verdade das Escrituras e atividade teológica relacionada a ela de modo algum é possível sem o uso de terminologia extrabíblica.

Envolvidos no uso de tais termos, portanto, está o direito de reflexão independente do cristão e o direito de existir da teologia.” (BAVINCK, Herman. Dogmática Reformada, vol. 2: Deus e a Criação, Grand Rapids: Baker Academic, 2006, p. 296)

Interação colegial no Corpo de Cristo

A chave para a criação, aceitação e uso de linguagem extra-bíblica é uma análise acadêmica humilde e responsiva que seja motivada por um desejo de que a igreja cresça em maior maturidade em Cristo.

É por causa da doutrina da santificação progressiva, bem como o processo refinador da espiral hermenêutica, que sempre estaremos proferindo para a consciência cristã novas idéias e palavras. Isso é uma coisa boa.

Espero que nós nunca paremos de pensar sobre a condição humana e como podemos cumprir nossa responsabilidade dada por Deus de trazer mudança a essa condição até a volta de Jesus. Eu creio que ele quer que seja assim.

Como Bavinck assinalou, o Salvador cunhou novas palavras e maneiras de explicar velhas verdades. Tudo bem para mim, conquanto nós façamos o que ele fez: as novas palavras explicam a verdade enquanto ajudam no avanço do Evangelho.

Um exemplo e modelo atual

No campo do aconselhamento bíblico, nenhum ser humano surgiu com uma linguagem mais extra-bíblica que o pai do movimento moderno de aconselhamento, Jay Adams. Deus tem usado este homem para começar nada menos do que uma “revolução de santificação” dentro da igreja.

Dentro do corpo de sua obra, ele tem ou cunhado ou popularizado muitas palavras que não estão na Bíblia, ou ele tem dado às palavras significados alternativos ou adicionais que a Bíblia não pretendia originalmente. Aqui estão algumas amostras de palavras extra-bíblicas, não-bíblicas ou biblicamente alterados que Jay tem nos dado, a fim de nos ajudar, não só a pensar melhor sobre o aconselhamento, mas a fazer um aconselhamento melhor: informes marginais, pré-condicionamento, desabituar e reabituar.

O mais popular e mais usado de seus termos bíblico-alterados é palavra noutético. Para aqueles de vocês que podem não estar familiarizados com o mundo do aconselhamento bíblico, essa palavra foi apresentada como uma forma de falar sobre como trazer ajuda a outros. É transliterada da língua grega, especificamente em Romanos 15.14:

“Meus irmãos, eu mesmo estou convencido de que vocês estão cheios de bondade e plenamente instruídos, sendo capazes de aconselhar-se uns aos outros” (NVI).

Tenho certeza de que Paulo não estava pensando em um movimento de aconselhamento quando usou a palavra. No entanto, Jay, conduzido e iluminado pelo Espírito de Deus, criou este novo uso da palavra da língua grega e construiu todo um modelo de aconselhamento em cima dela.

Noutético é uma das histórias de sucesso de como um termo bíblico alterado não só pode levar-nos além do que foi originalmente destinado a ser pelos autores bíblicos, mas ajuda-nos a ser melhores cristãos também.

Um exemplo específico

Nos últimos anos tem havido uma discussão dentro do movimento de aconselhamento bíblico sobre o uso da palavra idolatria como uma maneira de descrever a condição humana. Alguns homens muito piedosos e mulheres que eu respeito, não ligam para o uso dessa palavra, porque ela só é usada uma única vez na Bíblia e se refere a deuses domésticos e similares. Outros cristãos que respeito a usam em uma tentativa de descrever a falsa adoração que se passa no coração de pessoas que estão presas em seus pecados.

Eu acho que é uma boa palavra para usar em contextos de santificação porque me ajuda a explicar a falsa adoração, que é o uso original da palavra na Bíblia. Quando eu uso a palavra para ajudar a explicar a condição humana da pessoa que eu estou servindo no contexto de aconselhamento, eu não deixo a palavra sem explicação.

Meu objetivo é a desembrulhar plenamente a condição do coração da pessoa, chamando a atenção para o seu pecado. Eu ainda procuro ajudá-la a aprender como aplicar o Evangelho a seu coração para que possa mudar e crescer. Pessoalmente, eu acho a palavra muito útil para servir as pessoas que estão travadas em sua santificação progressiva.

Felizmente, estamos todos juntos nisso. Nós somos irmãos e irmãs em Cristo. Em 2010 eu conduzi uma entrevista com o meu bom amigo Donn Arms sobre o uso da palavra “idolatria” como uma maneira de descrever a condição humana. Donn é parceiro de Jay em seu ministério aqui na Carolina do Sul. Donn e eu somos amigos há mais de 14 anos. Ele afirma que não sente que usar o termo “ídolos do coração” é uma construção útil no aconselhamento. Eu acredito que a minha entrevista com o meu amigo Donn mostra como dois irmãos podem discordar, mas ainda assim estar centrados no Salvador como colaboradores dele.

Eu ainda espero que todos nós possamos continuar a fazer como Bavinck sugeriu e Jay modelou para nós: “… processá-la em nossas próprias mentes e reproduzi-la em nossas próprias palavras” para a glória de Deus!

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